que me pegaram de jeito. Num livro que é repleto de pequenos momentos sensacionais.
"Dentro do arco das costelas entre suas pernas o negro coração pulsava segundo a vontade de quem e o sangue latejava e as entranhas se mexiam em sua maciças circunvoluções azuis segundo a vontade de quem e os fortes ossos das coxas e joelhos e canelas e os tendões parecendo amarras de linho que puxavam e dobravam e puxavam e dobravam suas articulações segundo a vontade de quem envolta e abafada na carne da cabeça virando de um lado para outro e no grande teclado escravizante dos dentes e nos globos quentes dos olhos onde o mundo ardia".
"Logo passaram por uma touceira de cholla contra o qual pequenos pássaros tinham sido lançados e empalados pela tempestade. Passarinhos cinzentos e anônimos cravados em atitude de vôo natimorto ou pendendo frouxamente cobertos de penas. Alguns ainda estavam vivos e retorceram-se sobre as próprias espinhas quando os cavalos passaram e ergueram as cabeças e gritaram mas os cavaleiros seguiram em frente".
Todos os belos cavalos, Cormac McCarthy
terça-feira, 17 de novembro de 2009
sábado, 14 de novembro de 2009
O professor indicado
Notícia que animou minha manhã de sábado: saiu a lista de indicados ao Prêmio Açorianos de Literatura 2009, promovido pela Prefeitura de Porto Alegre. E meu livro de estréia, O Professor de Botânica, foi indicado na categoria Melhor Narrativa Longa, onde concorre com Uma leve simetria, de Rafael Bán Jacobsen (também publicado pela Não Editora) e A Parede no Escuro, de Altair Martins (que conheci pessoalmente ontem, no lançamento do Desacordo Ortográfico).Como se isso não fosse o bastante, também concorro em outras duas categorias: melhor projeto gráfico, por Ficção de Polpa, vol. 3, e melhor capa, com Raiva nos Raios de Sol, de Fernando Mantelli. O que fez de mim campeão de indicações dessa edição do prêmio, e a Não Editora, a editora com maior número de indicações.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Manual do escoteiro-mirim hardcore
De Herzog a Spielberg, a noção de mistério e aventura contida na idéia de se aventurar no meio do mato é uma coisa que sempre me fascina (e de certa forma, meu livro O professor de botânica é um pouco sobre essa imagem idealizada e rousseauniana que tenho, enquanto homem urbano, da vida natural – alguém já disse que há um pouco de Rousseau em cada jardim doméstico). Já tinha ouvido falar da história do coronel Percy Fawcett e sua obsessão em encontrar o El Dorado na Amazônia (minha mãe é espectadora assídua do History Channel), então li Z, a Cidade Perdida*, de David Grann, como se tivesse sido escrita especialmente pra mim, sensação que só tive esse ano quando li o Mason & Dixon do Pynchon.No contexto em que o coronel Percy Fawcett viveu a maior parte da sua vida, acreditar na existência de cidades perdidas era uma realidade científica. Fawcett, entediado com a rotina militar, fez um curso de explorador na Real Sociedade Geográfica (sim, vivia numa época em que havia curso para se tornar explorador) e saiu de lá com um contrato para delimitar a fronteira entre Brasil e Bolívia, no meio da Amazônia, uma experiência tão marcante quanto surreal (e aqui volto a pensar em Mason & Dixon) onde Fawcett foi apresentado à piranhas, formigas saúvas, núvens de mosquitos e o temível candiru, peixe minúsculo e espinhento que entra pela uretra e pode provocar a perda de partes sensívels da hombridade de um explorador – na melhor das hipóteses.
Ainda que, a certo momento, a descrição de mais de cinquenta vermes nos cotovelos de um membro de uma das expedições seja o suficiente pra que nunca se deseje uma aventura amazônica semelhante, Fawcett, que era tremendamente antissocial e não se sentia muito à vontade com os próprios filhos, preferia isso a vida urbana.
Com o tempo, Fawcett torna-se mais e mais obcecado com a idéia de encontrar a prova da existência de uma sofiticada civilização perdida na Amazônia, e a descoberta de Macchu Piccho por Hiram Bingham só alimenta sua obsessão.
Um dos aspectos mais interessantes de sua história é que, assim como o personagem que inspirou (estamos falando do próprio Indiana Jones, no caso), não faltaram elementos pulp à sua vida: desde seus rivais, como o milionário americano Alexander Rice, que dispunha de tecnologia altamente avançada para os padrões da época (como rádios e hidroplanos) e que desejava encontrar Z antes de Fawcett (depois, quando Fawcett despareceu, o próprio Rice tentou encontrar o rival), ao potencial charlatão com o nome muito pulp de Savage Landor, que escrevia sobre peripécias altamente improváveis ao redor do mundo, passando pelo membro traíra da expedição (Fawcett acreditava que todo grupo possui um Judas).
O texto de Grann é cheio dos vícios de linguagem de um escritor best-seller, com os ganchos meio bregas no final de cada capítulo (tradição, diga-se de passagem, herdada dos seriados de aventura que Fawcett provavelmente inspirou), e que dão um ar meio Michael Crichton pra narrativa toda – o que não é ruim, ressalte-se. Mas dando um desconto pro cara no aspecto técnica literária, a pesquisa que Grann faz é deliciosa. Desde resgatar as conexões de Fawcett com Conan Doyle e seu papel como inspirador de O Mundo Perdido (o original, não o de Crichton), até recapitular a história de outros obcecados pelo El Dorado, como Lope de Aguirre, a Cólera dos Deuses em pessoa. A certa altura, quando Fawcett já desapareceu na Amazônia com seu filho mais velho e o amigo deste, em sua última viagem, Grann recapitula rapidamente o destino de vários dos que tentaram resgatá-lo: uma sucessão de aventureiros sem-noção alguma do perigo, um terminando pior que o outro. Há o ator de filmes B que acaba sendo sequestrado por índios, há o explorador que, presenteado com pombos-correio, os mandou aos poucos descrevendo sua descida ao inferno até a morte, há os que enlouquecem e se matam no meio da selva, e os que são mortos pelos índios. É o tipo de livro tão divertido que eu fico desejando que não acabe nunca (o que, no caso do supracitado Mason & Dixon, é mais ou menos o que acontece).
Único porém, em relação à pesquisa do livro: após tantas tragédias pessoais e familiares motivadas pelo desejo de fama e glória envolvendo Fawcett e a idéia de civilização perdida na Amazônia, a possibilidade levantada ao final do livro, vinda de um pesquisador (Michael Heckenberger, google se quiser), que supostamente encontra a cidade perdida, me motivou certa desconfiança – vou esperar pelo artigo na National Geographic antes de levar a hipótese mais a sério. Como resultado prático, posso dizer que depois de ter lido Z, fiquei com uma tremenda vontade (aliás, prometi pra mim mesmo que um dia ainda vou fazer isso) de escrever um livro estilo “aventura para garotos”.
*Eu já havia comentado da capa desse livro lá no Sobrecapas, com entrevista com o capista Christiano Menezes.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Laranja Mecânica
Leitura recente das que mais me empolgou, foi o Laranja Mecânica, Anthony Burgess, em tradução do Fábio Fernandes publicada pela Aleph em 2004 (com uma capa muito bacana e impactante, diga-se de passagem). A edição vêm com o tal 21° primeiro capítulo que, concordo, deixa o leitor com cara de cú, se pensar que a história teria terminado muito bem no 20° capítulo (que é onde o filme acaba). Kubrick só leu até o 20° capítulo porque leu a edição americana, cujo editor achou o último capítulo tão empaca-foda que preferiu cortá-lo. Entendo, entendo... mas por mais frustrante e potencialmente inverossímil que seja, aquele final do livro também faz sentido. No mais, ainda que a violência descrita no livro não choque mais, dado o contexto atual das coisas, saber que Alex tem 15 anos no começo do livro, e não um marmanjo já passado dos vinte como o Malcolm McDowell era quando fez o filme, acrescenta o devido choque.Outra coisa bacana dessa edição foi a introdução do Fábio Fernandes, explicando que a inspiração original de Burgess para a violência juvenil e a gíria nadsat eram as rivalidades entre mods e rockers na Inglaterra dos anos sessenta, mas que o autor preferiu pensar melhor em como abordar isso no livro, por medo de que deixasse a obra datada. Depois de uma visita à Rússia, e de descobrir que lá também se tinha problemas com gangues juvenis, veio-lhe a idéia de usar palavras russas e gírias ciganas para compor o nadsat. Essa edição da Aleph, aliás, conta com um dicionário nadsat no final. Tentei ler o máximo possível sem consultá-lo, nem sempre resisti, mas a sonoridade da gíria é uma coisa deliciosa de se ler, ainda mais sendo o livro narrado em primeira pessoa por Alex. Com o tempo, acostuma-se, chego a sair pensando em nadsat. Aliás, serviu também pra saber de onde veio o nome da banda DeVotchka (que quer dizer "garota", simplesmente). Abaixo, um trecho que curti:
Mas, irmãos, esse negócio de ficar roendo as unhas dos dedos do pé sobre qual é a causa da maldade é o que me torna um maltchik risonho. Eles não procuram saber qual a causa da bondade, então porquê ir à outra loja? Se os plebeus são bons é porque eles gostam, e eu jamais iria interferir com seus prazeres, e o mesmo vale para a outra loja. E eu frequento a outra loja. E mais: maldade vem de dentro, do eu, de mim ou de você, totalmente odinokis, e esse eu é criado pelo velho Bog ou Deus, e é seu grande orgulho e radóstia. Mas o não-eu não pode ter o mal, quer dizer, eles lá do governo e os juízes e as escolas não conseguem permitir o eu. E não é a nossa história moderna, meus irmãos, a história de bravos eus malenks combatendo essas grandes máquinas? Estou falando sério sobre isso com vocês, irmãos. Mas eu faço o que faço porque gosto de fazer.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Testosterona literária
Na Noize #28, além das resenhas de cinema do mês (Anticristo, Se beber não case e Up), saiu também uma microresenha que escrevi, para o último livro do Bernard Cornwell. Segue o texto, numa versão um pouco maior do que a que foi publicada (o limite de 1000 caracteres é sempre mortal).
Azincourt, de Bernard Cornwell (2009)
Um dos destaques da Bienal do Rio em setembro, o escritor inglês Bernard Cornwell veio ao Brasil lançar seu novo livro, Azincourt, que funciona como uma espécie de introdução à sua obra, marcada por diversas séries (só o das Aventuras de Sharpe conta com 20 romances, 7 deles lançados no país, além das trilogias Crônicas de Artur, favorita dos fãs, e A Busca do Graal). Estão ali todos os elementos típicos de suas aventuras, a começar pelo protagonista, Nicholas Hook, que após bater num padre (que, nos livros de Cornwell, são sempre tarados sádicos), torna-se fora da lei até ingressar no exército de Henrique V, em sua campanha pela coroa da França, culminando na famosa batalha que dá título ao livro. Está presente o pacote padrão de Cornwell: desde as detalhadas descrições históricas de roupas, cenários e hábitos, até – elemento presente em todos os seus livros – o violento resultado do fanatismo religioso, coisa que o autor, cujos pais adotivos eram fundamentalistas cristãos, conhece bem. Em níveis de testosterona, os livros de Cornwell são o equivalente literário a jogar God of War ou assistir 300 de Esparta (e me ocorre que, se uma mulher lesse, jogasse e assistise as referidas obras num combo, desenvolveria um par de testículos por geração espontânea). Ainda que se repita muito em estilo e temas, Cornwell possui um excelente senso de ritmo e domínio da narrativa.
Azincourt, de Bernard Cornwell (2009) Um dos destaques da Bienal do Rio em setembro, o escritor inglês Bernard Cornwell veio ao Brasil lançar seu novo livro, Azincourt, que funciona como uma espécie de introdução à sua obra, marcada por diversas séries (só o das Aventuras de Sharpe conta com 20 romances, 7 deles lançados no país, além das trilogias Crônicas de Artur, favorita dos fãs, e A Busca do Graal). Estão ali todos os elementos típicos de suas aventuras, a começar pelo protagonista, Nicholas Hook, que após bater num padre (que, nos livros de Cornwell, são sempre tarados sádicos), torna-se fora da lei até ingressar no exército de Henrique V, em sua campanha pela coroa da França, culminando na famosa batalha que dá título ao livro. Está presente o pacote padrão de Cornwell: desde as detalhadas descrições históricas de roupas, cenários e hábitos, até – elemento presente em todos os seus livros – o violento resultado do fanatismo religioso, coisa que o autor, cujos pais adotivos eram fundamentalistas cristãos, conhece bem. Em níveis de testosterona, os livros de Cornwell são o equivalente literário a jogar God of War ou assistir 300 de Esparta (e me ocorre que, se uma mulher lesse, jogasse e assistise as referidas obras num combo, desenvolveria um par de testículos por geração espontânea). Ainda que se repita muito em estilo e temas, Cornwell possui um excelente senso de ritmo e domínio da narrativa.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
O outro blog
Tenho outro blog, agora. Enquanto esse aqui continua sendo meu blog pessoal, onde escrevo bobagens sobre coisas aleatórias, filmes e livros vistos, o sobrecapas será focado em design de livros. Pra começar, uma entrevista com o designer Marcelo Martinez, do estúdio Laboratório Secreto, sobre as capas dos livros de Bernard Cornwell. O link é sobrecapas.blogspot.com
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Anticristo
Na cena de abertura, filmada em belíssimo preto-e-branco e ao som da ária Lascia ch'io pianga de Händel, o casal anônimo de protagonistas faz sexo no banheiro enquanto o filho pequeno despenca lentamente da janela aberta. Ela (Charlotte Gainsbourg, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes pelo papel), entra em depressão profunda pelo luto. Ele (Willem Dafoe), psicólogo, acredita que pode curar a esposa levando-a para a casa de campo dos dois, Éden. Lá, pretende criar jogos psicológicos para tratar a esposa, que acabam levando os dois a um intenso confronto sexual e violentamente agressivo – para os personagens e para o espectador, já que von Trier não desvia a câmera nem em seus momentos mais fortes (que incluem tortura e mutilação genital). Assim como em Dogville, seu filme mais popular, o mal, para o diretor, está na base da natureza humana.Quando um crítico em Cannes exigiu que o diretor explicasse a sua obra, Von Trier respondeu que, se quisessem, poderiam interpretá-lo como um “ato divino”. À parte sua arrogância calculada, seu trabalho em Anticristo se impõe, pela seriedade com que processa os elementos psicológicos de terror que afetam seus personagens, acima da mera classificação como “filme de terror”, ou de qualquer classificação. É um filme difícil de se processar, mas muito além da discussão de ser “bom” ou “ruim” – ou, para manter a referência à Nietszche de seu título, é um filme que se posiciona além do bem e do mal.
*Essa resenha sairá na edição de outubro da revista Noize, junto com outra de Se Beber, Não Case e Up! Altas Aventuras. Aliás, alguém me explica porquê diabos esse filme demorou quase dois meses pra estrear em Porto Alegre?
Atualizando...
Na semana passada, o jornal CineSemana, editado pelo amigo e ex-colega de oficina Gustavo Faraon, me considerando "uma personalidade do universo cultural" (até parece...eheh), me perguntou qual meu filme favorito, para uma matéria comemorativa da sua edição 100. Pra quem me conhece, minha escolha é bastante óbvia. O pdf pode ser visto clicando nesse link (as outras duas opções eram Os Pássaros ou Bambi. Longa história...)
De clippings atrasados: a coleção Ficção de Polpa foi destaque (de capa!) do Caderno 2 do jornal A Tarde, da Bahia - faz um tempo já, mas dá pra ver clicando aqui.
De clippings atrasados: a coleção Ficção de Polpa foi destaque (de capa!) do Caderno 2 do jornal A Tarde, da Bahia - faz um tempo já, mas dá pra ver clicando aqui.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
O twitter aleijou este blog
Se o twitter, enquanto microblog, serviu para alguma coisa, foi eliminar blogs que se limitam a ficar colocando post de uma linha sobre coisas legais que viram em outros blogs. O twitter tem me servido como grande fonte de links interessantes, e no geral, me poupa o trabalho de encher este blog aqui com post curtinhos e bestas sobre alguma coisa legal que encontrei na web (aliás, se alguém, por algum motivo, quiser me seguir no twitter, meu nick é @samirmachado).
Isso para explicar que atualizações aqui serão escassas, ainda que eu pretenda atualizá-lo com certa regularidade irregular. Não, não pretendo cometer um bloguicídio pela terceira vez (este aqui já é quarta tentativa de blog, os três blogs anteriores foram deletados por motivo de extrema vergonha do autor dos posts com o grau de asneirices que foi capaz de escrever ao longo do tempo. Mas dando uma revisada por alto, até que me sinto à vontade com o que postei neste aqui até agora).
Isso para explicar que atualizações aqui serão escassas, ainda que eu pretenda atualizá-lo com certa regularidade irregular. Não, não pretendo cometer um bloguicídio pela terceira vez (este aqui já é quarta tentativa de blog, os três blogs anteriores foram deletados por motivo de extrema vergonha do autor dos posts com o grau de asneirices que foi capaz de escrever ao longo do tempo. Mas dando uma revisada por alto, até que me sinto à vontade com o que postei neste aqui até agora).
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Cadernos de Não-Ficção #2
Está no ar o segundo volume da Cadernos de Não Ficção, revista virtual de crítica literária organizada pelo Antônio Xerxenesky. O projeto gráfico é meu, com ilustrações de Ieve Holthausen (que fez a capa dessa edição) e Marcelo Ferranti.Alguns dos destaques dessa edição da revista: uma crítica de Carol Bensimon às oficinas literárias, texto do Fábio Fernandes sobre o escritor China Miéville, um artigo meu sobre livros digitais e Kindle, e uma sessão especial sobre poesia contemporânea, com textos, entre outros, de Diego Grando e Paulo Scott.
Ah, e uma novidade é a sessão "Prateleiras Comentadas", em que fotografamos as prateleiras de livros de alguém e pedimos que o dono explique por quê tem os livros que tem.
A revista está disponível para download no site da editora, ou em versão folheável on-line,no Issuu.
Soa familiar
Seria uma campanha milionária. É, seria. É coisa de muita verba quando se passa duas horas tomando expressos italianos com a diretora de marketing da grande corporação que eu não estou autorizado a dizer o nome por nada nesse mundo, saus pernas se cruzando, se descruzando, e o tique de puxar a saia, além dos meus três patrões de terno com tênis e meias do patolino, olhando disfarçadamente para as prateleiras que ostentam seus troféus de melhor alguma coisa do ano. Essa minha profissão, é a profisão de dourar a pílula, eu pensei, e não importa se o assunto é desodorante para axilas desidratadas ou imóveis de três quartos com paredes de gesso e espaço gourmet.
(...)
Mandaram vir o café e alguns biscoitinhos feitos artesanalmente por alguma socialite entediada (há quem pague). Depois de algum comentário cordial referente ao delicioso e sutil sabor de canela, um toque de gengibre talvez, a diretora de marketing da grande corporação que não devo revelar o nome começou a falar. E falava na verdade tudo que já sabíamos, apontando para um slide-show que, como sempre, não funcionou na primeira tentativa. A pronúncia forçada, saindo dos seus lábios refeitos em cirurgia plástica, lembrava uma aula ruim de fonética.
Carol Bensimon, Sinuca embaixo d’água.
domingo, 13 de setembro de 2009
Up
É inegável que a Pixar trabalha num patamar de qualidade superior à de suas concorrentes no cinema de animação, e Up - Altas Aventuras vem apenas dar continuidade ao que já estava cimentado com Ratatouille ou Wall-E. A primeira meia-hora de filme, um resumo da vida conjugal de Carl Fredrickson, é um momento de sensibilidade e melancolia que já faz valer o filme todo. Há um velho aviador, cruza de Robur com capitão Nemo, com um exército de cães treinados que rendem as melhores piadas do filme. Aliás, interessante como o humor dos animais desse filme opera num sentido inverso de comédia tradicional com bichos, digo, aqui o humor vêm dos animais se comportarem como animais (só o olhar neutro da Kevin, o pássaro raro protegido por Carl e o menino gordinho, já é engraçado sem que nada aconteça), e não como animais humanizados, por mais que estejamos falando de cães que falam, num filme animado (os cães roubando comida, por exemplo).Creio que o filme veio totalmente em cópias 3D dessa vez, um 3D que se apóia em dar profundidade aos cenários, e não em atirar coisas na cara do espectador. Em Porto Alegre, está só em cópias dubladas - se espalha a crença (falsa) de que o 3D não suporta legendas, mas a dublagem de Chico Anísio como Carl é um dos maiores achados do filme, idéia mais bem sacada de dublagem brasileira em muito tempo.
Uma versão condensada desse texto deve sair na próxima edição da revista Noize.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Brüno
Uma mesma piada contada duas vezes continua sendo engraçada? No caso de Brüno, a resposta varia. O filme é menos uma comédia do que um experimento social radical do qual o camaleônico Sacha Baron Cohen se utiliza para fazer o que sabe como comediante: derrubar máscaras. Brüno, seu personagem da vez, é um repórter fashionista über gay que, após ser “expuso” do mundo da moda, viaja aos EUA acompanhado de seu assistente Lutz, determinado a se tornar “o maior popstar austríaco desde Hitler”. Suas tentativas se sucedem na forma de um piloto de programa de TV (provavelmente a parte mais insana e engraçada do filme), programas de entrevistas ou adoção de bebês africanos (afinal, se Angelina a Madonna podem, Brüno também pode), até concluir que a única forma de ficar famoso é se tornar hétero - o que lhe dá a oportunidade de entrevistar pastores evangélicos, caçadores de animais, militares e todo tipo de ambiente onde a homofobia é regra, culminando com uma arriscada apresentação num ringue de vale-tudo (onde, não tenho dúvidas, Baron Cohen correu certo risco de vida). Sua grande habilidade continua sendo incorporar personagens que são puro Id, correndo descontroladamente sem superegos que os controlem, de tal forma provocando choque e surpresa naqueles com que interage, que não há verniz social que se mantenha.(Resenha que deve sair na próxima edição da revista Noize, de setembro).
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Ahab e a cabeça da baleia
“Fala, estraordinária e venerável cabeça”, murmurou Ahab, “que embora não agraciada com barbas, aqui e ali apresentas o musgo respeitável; fala, cabeça poderosa, conta-nos o segredo que guardas em ti. De todos os mergulhadores, tu mergulhaste mais fundo. Essa cabeça, sobre a qual o sol lá em cima brilha, moveu-se pelas fundações deste mundo. Onde nomes e navios esquecidos enferrujam, e esperanças e âncoras perdidas apodrecem; onde, em seu porão de morte, a nau terra encontra lastro nos ossos de milhões de afogados; ali, naquele terrível mundo aquático, ali era a tua moradia mais corriqueira. Estiveste onde sino e mergulhador jamais estiveram; dormiste ao lado de muitos marinheiros, onde mães insones teriam dado a vida para repousar. Viste os amantes abraçados saltando do navio em chamas; quando o céu lhes parecia falso. Viste o oficial assassinado, quando lançado do convés pelos piratas à meia-noite; durante horas caiu na mais profunda meia-noite de sua goela insaciável; e os assassinos continuaram navegando incólumes – enquanto raios velozes destroçavam o navio vizinho que podia estar trazendo um marido fiel para braços abertos e ansiosos. Ó, cabeça! Viste o suficiente para apartar os planetas e tornar Abraão descrente, e nem uma sílaba escuto de ti!”Herman Melville, Moby Dick, capítulo 70, "A esfinge". Leitura em andamento.
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